Cartão Vermelho Seletivo

Quando a FIFA apita a política no campo global


A decisão da FIFA de suspender a Seleção Russa de Futebol da Copa do Mundo de 2022, após a invasão da Ucrânia foi apresentada como um posicionamento firme em defesa de valores universais. Um gesto nobre, quase pedagógico: o futebol ensinando geopolítica ao mundo. Afinal, nada simboliza mais a neutralidade do esporte do que escolher cuidadosamente quais guerras merecem cartão vermelho e quais seguem como “lance normal”.


Entre a suspensão da Rússia e o silêncio diante de outras potências, o futebol revela que a neutralidade pode ser apenas mais uma regra interpretável

Curiosamente, quando se trata de outras potências envolvidas em intervenções militares ao redor do planeta, como os Estados Unidos, agora em 2026, o apito parece ficar mais silencioso. Talvez seja coincidência. Talvez seja apenas uma questão de “contexto”, essa palavra elástica que se adapta melhor a alguns do que a outros. No fim, a mensagem transmitida é clara: há conflitos que abalam os princípios do esporte; e há conflitos que, pelo visto, não interferem nem na tabela das eliminatórias.

É interessante como a tal “separação entre política e futebol” funciona com impressionante flexibilidade. Em teoria, a regra é igual para todos; na prática, depende de quem está no campo e de quem financia o estádio. A isonomia, tão exaltada nos discursos oficiais, parece jogar sempre fora de casa. E assim seguimos, acreditando que o esporte é um território neutro - especialmente quando convém.