Um estudo inédito realizado pela Globo em parceria com a Quaest traça um panorama detalhado sobre a relação dos brasileiros com a música, evidenciando um cenário marcado por contrastes entre o que se ouve e o que se reconhece como identidade cultural. A pesquisa ouviu milhares de pessoas em todas as regiões do país, cruzando dados de renda, escolaridade, idade e repertório cultural. O levantamento combina entrevistas quantitativas e análise de comportamento, revelando que a música ocupa um papel central na vida dos brasileiros, funcionando como um dos poucos pontos de consenso nacional.
No entanto, os dados também expõem um desalinhamento significativo entre consumo e percepção cultural. O gênero sertanejo lidera com folga tanto no consumo quanto na identificação simbólica. Ele é o favorito de 26% dos brasileiros e também é apontado por 25% como o que melhor representa o país, consolidando uma hegemonia rara no mercado musical global. Em segundo lugar no consumo aparece o gospel, com 16%, seguido por forró, piseiro e arrocha, que somam 10%. Apesar da força no dia a dia, o gospel apresenta baixa associação com a identidade cultural brasileira, sendo citado por apenas 5% dos entrevistados como representativo do país. O dado evidencia um descompasso entre prática cotidiana e reconhecimento simbólico.
Já o samba e o pagode aparecem como um dos principais pilares da identidade nacional, com 23% das menções, mas ocupam apenas a quarta posição no consumo, com 9%. O resultado reforça o papel desses gêneros como referências históricas e culturais, ainda que menos presentes nas escolhas musicais cotidianas. Outro dado relevante envolve a MPB, tradicionalmente associada à ideia de “música brasileira”. O gênero registra apenas 8% de preferência, indicando uma mudança geracional e perda de protagonismo no consumo de massa, embora ainda mantenha relevância como base formativa e artística. Os ritmos nordestinos, como forró, piseiro e arrocha, apresentam um equilíbrio incomum: somam 10% no consumo e 12% na percepção de identidade.
O resultado reforça a influência crescente do Nordeste como polo criativo e difusor de tendências musicais no país. Além dos gêneros, o estudo aponta fatores estruturais que moldam o comportamento musical. A cultura religiosa e a mídia aparecem como principais vetores de influência, explicando tanto o crescimento do gospel quanto o impacto de plataformas digitais e da televisão na popularização de hits. Outro aspecto determinante é a formação cultural. Segundo a pesquisa, o repertório musical está mais associado à escolaridade da mãe e aos hábitos de leitura na infância do que à renda. Isso indica que o consumo musical não depende apenas de acesso econômico, mas de estímulos culturais ao longo da vida.
No conjunto, os dados revelam um público complexo, cuja relação com a música não pode ser reduzida ao consumo imediato. Há uma separação clara entre o que se escuta, o que se valoriza como identidade e como se constrói o repertório cultural. O retrato final é o de um país diverso, onde tradição e mercado coexistem em tensão. Para a indústria musical, compreender essa dinâmica se torna essencial para o desenvolvimento de estratégias mais eficazes, capazes de dialogar simultaneamente com o gosto popular e com o imaginário cultural brasileiro.