Por Caetano Barata
O alho, elemento aparentemente simples da culinária cotidiana, ocupa lugar de destaque em diversas cosmologias tradicionais. Sua presença como símbolo de proteção atravessa milênios e culturas, conectando narrativas sagradas que vão do Antigo Testamento às tradições de matrizes africanas no Brasil.
No livro do Êxodo, encontramos uma das mais poderosas imagens de proteção divina: o sangue do cordeiro pascal marcado nos umbrais e nas vergas das portas dos hebreus. Aquele sinal vermelho, colocado por orientação de Moisés, separava os escolhidos da destruição, afastava a morte, protegia as casas dos filhos de Israel durante a décima praga do Egito. O sangue nas portas não era mera superstição, mas um pacto visível, um símbolo concreto de aliança e amparo divino. A substância vital do cordeiro tornava-se barreira sagrada contra o mal que percorria as ruas naquela noite terrível.
Curiosamente, essa mesma lógica simbólica de proteção visível ressurge em contextos contemporâneos. No Carnaval da Bahia de 2026, a cantora Claudia Leitte provocou acalorado debate ao mandar colocar um cordão de alho em seu trio elétrico. O gesto, aparentemente simples, tocou em feridas profundas de uma sociedade que ainda luta contra a intolerância religiosa. Para muitos, o alho pendurado evocava práticas de proteção espiritual associadas às religiões de matrizes africanas. Para outros, era apenas um amuleto popular, desprovido de conotação religiosa específica. A polêmica evidenciou o quanto símbolos de proteção continuam sendo território de disputa cultural e espiritual no Brasil.
Nas tradições de matrizes africanas presentes no país, como o Candomblé e a Umbanda, os elementos naturais não são meros recursos materiais, mas portadores de força vital, de axé, de energia dinâmica que articula o visível e o invisível. Assim como o sangue nas portas do Êxodo estabelecia uma fronteira sagrada entre a vida e a morte, o alho nas tradições afro-brasileiras opera como signo de purificação e proteção.
É preciso compreender que, nessas tradições, cada folha, raiz ou fruto possui função ritual específica, vinculada a fundamentos teológicos próprios. O alho, por sua natureza pungente, odor marcante e propriedades terapêuticas amplamente reconhecidas na fitoterapia popular, foi incorporado simbolicamente como elemento de limpeza espiritual e proteção energética. Seu uso, em banhos, defumações e rituais domésticos, associa-se à ideia de quebra de cargas negativas, descarrego e fortalecimento do campo espiritual.
Não se trata de superstição simplória, como por vezes apregoam discursos preconceituosos, mas de um sistema simbólico coerente, tão legítimo quanto o sangue do cordeiro pascal. A força do alho, nesse contexto, opera como signo de purificação. Sua intensidade sensorial traduz, no plano ritual, a capacidade de expulsar aquilo que é considerado desarmônico ou intrusivo. A metáfora é potente: aquilo que repele no plano físico, o odor forte, converte-se em barreira simbólica contra influências espirituais indesejadas, da mesma forma que o sangue vermelho nas portas criava um escudo visível contra a destruição.
Importante frisar que a ideia de afastar espíritos malignos não deve ser lida sob a ótica dualista simplista de bem versus mal herdada exclusivamente de tradições europeias cristãs, mas dentro da lógica própria das religiões afro-brasileiras, onde o desequilíbrio energético, a obsessão espiritual ou a interferência de forças desajustadas são tratados por meio de rituais de harmonização e fortalecimento do axé.
O episódio do trio de Claudia Leitte ilustra como símbolos de proteção continuam vivos e controversos na cultura brasileira. O cordão de alho no trio elétrico, intencional ou não, dialogava com essa longa tradição de marcas visíveis de amparo espiritual. Assim como os hebreus não escondiam o sangue em suas portas, mas o exibiam como declaração pública de fé e proteção, o alho pendurado no trio tornava-se declaração visível, pública, festiva até, de busca por proteção em meio à multidão e à energia intensa do Carnaval.
Além disso, o uso do alho dialoga com saberes ancestrais africanos e indígenas, integrando um patrimônio cultural que resiste historicamente ao apagamento. A oralidade, os fundamentos litúrgicos e o conhecimento das ervas, guardados por mães e pais de santo, constituem verdadeiro sistema epistemológico, transmitido de geração em geração, tão sagrado quanto as escrituras que preservaram a memória do sangue nas portas do Êxodo.
Reconhecer o valor simbólico do alho nas tradições de matriz africana é também reconhecer a legitimidade dessas espiritualidades e combater a intolerância religiosa que ainda persiste no Brasil. Quando um elemento natural é consagrado em ritual, ele deixa de ser apenas matéria: torna-se veículo de sentido, instrumento de proteção e expressão de fé. Da mesma forma que o sangue do cordeiro não era apenas líquido vital, mas sacramento de aliança, o alho não é apenas bulbo aromático, mas símbolo carregado de significado espiritual.
O alho, portanto, não é apenas tempero. É memória que conecta Bahia e Jerusalém, é resistência cultural, é símbolo de cuidado espiritual que atravessa oceanos e séculos. É, sobretudo, expressão viva de uma herança cultural múltipla que continua a nutrir corpos e espíritos, lembrando-nos de que a busca humana por proteção divina assume formas diversas, mas carrega sempre a mesma essência: a fé traduzida em gestos concretos, visíveis, que marcam fronteiras entre o sagrado e o profano, entre o amparo e o desamparo.
Seja nas portas do Êxodo ou nos trios elétricos da Bahia, o símbolo permanece: proteção é algo que se mostra, que se declara, que se pendura para que todos vejam. E nisso reside sua força mais profunda.
Fonte: blog Caetano Barata