A impunidade gera a audácia dos maus by Carlos Lacerda

A ideia de que “rico não vai preso” se tornou uma espécie de mantra urbano

Por Caetano Barata em 18/09/2025 às 03:41:46

No Brasil, existe uma percepção quase unânime, atravessando diferentes classes sociais, de que a justiça falha quando se trata dos poderosos. A frase “não vai dar em nada, rico não fica preso” não é apenas um comentário popular, é um reflexo de décadas de desigualdade estrutural. As pessoas observam, impotentes, processos que se arrastam por anos nos tribunais, acordos obscuros sendo feitos nos bastidores, e, ao final, uma sensação de impunidade que fortalece o descrédito no sistema judicial. Para o cidadão comum, a justiça parece seletiva, aplicada com rigor apenas aos mais vulneráveis.

Essa percepção é alimentada por casos de repercussão nacional, em que empresários, políticos e celebridades se beneficiam de manobras legais, liminares e prisões domiciliares enquanto processos seguem lentos. O sentimento popular é de frustração, e muitos chegam a encarar a lei como algo distante, quase abstrato, que não se aplica de maneira igualitária. A ideia de que “rico não vai preso” se tornou uma espécie de mantra urbano, repetido em rodas de amigos, redes sociais e conversas de bar, consolidando um imaginário coletivo sobre a desigualdade de tratamento perante a lei.

Essa opinião, no entanto, não é apenas um julgamento moral, mas uma crítica social. Ela evidencia que a impunidade não é apenas a ausência de punição, mas um reflexo da estrutura de poder que privilegia quem tem dinheiro, influência e acesso aos mecanismos legais mais sofisticados. O descontentamento popular surge do contraste entre a velocidade com que o pobre é cobrado e julgado e a lentidão ou até mesmo a inexistência de consequências para quem detém privilégios. Nesse sentido, a frase revela não só indignação, mas também um diagnóstico sobre a concentração de poder no Brasil.

Apesar do pessimismo implícito nessa visão, é possível enxergar nela também um ponto de mobilização social. O clamor por justiça se transforma em debates públicos, movimentos sociais e pressão por reformas. O Brasil que acredita que “rico não fica preso” é, ao mesmo tempo, um país consciente da desigualdade, capaz de articular sua indignação e, gradualmente, buscar formas de mudar essa realidade. O desafio está em transformar essa percepção de impotência em ações concretas que enfrentem não apenas os indivíduos, mas todo o sistema que sustenta a impunidade.

Caetano Barata: Graduado em Direito FBB – Faculdade Batista Brasileira, Licenciado em Pedagogia/UNIME; ativista cultural em Simões Filho, ex-membro do COMPIR – Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial da cidade de Simões Filho. Ex-Conselheiro do CEPA – Círculo de Estudo, Pensamento e Ação. JR. Bemfica Advocacia e Consultoria.